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A Engenharia está bem entregue com Inês Miroto

Entrevista 9 Julho, 2018

“O meu pai é engenheiro Mecânico e sempre disse que no ano dele apenas existiam duas mulheres.” Hoje são mais, é verdade, e Inês Miroto é uma delas. Quase foi economista, mas rendeu-se à versatilidade da Engenharia. Depois da Colep, da Unicer e da Farfech seguiu o caminho de terras de Sua Majestade e é na Fedex, no Reino Unido que agora assume o novo desafio da Engenharia. Com 25 anos, Inês é a entrevistada das Grandes Entrevistas de Engenharia da OERN.

 

 

Para quem não a conhece, fale-nos um pouco do seu percurso profissional para podermos contextualizar.

Comecei o meu percurso profissional na Colep. Foi uma experiência muito enriquecedora em termos de conhecimento e de perceção do mundo profissional. Depois exerci funções de planeamento da procura na Unicer para o mercado externo. Por último, antes de abraçar o desafio de mudar de país e integrar a FedEx, exerci funções de workforce forecast planning, na Farfetch.  Ali fazia análise dos mercados nos quais a Farfetch existe e planeava a quantidade de agentes que seriam necessários de forma a satisfazer as necessidades dos clientes. Foram empresas que me enriqueceram enquanto pessoa e enquanto profissional. Sendo empresas de ramos muito distintos acho que adquiri soft skills e um know how bastante interessantes.

Atualmente trabalha no Reino Unido, na FedEx. Como se dá essa mudança?

O meu namorado recebeu uma proposta para vir para a FedEx, e durante o processo de recrutamento disse que eu era engenheira e eles pediram o meu CV. Daí decorreu todo um longo processo de entrevistas, testes presenciais e por vídeo conferência e, em janeiro, recebi a proposta para abraçar este desafio.

E como tem sido encarar este novo desafio?

A FedEx encontra-se numa fase muito interessante e única. A FedEx adquiriu a TNT e neste momento todos os esforços estão concentrados em fazer a integração das duas empresas da melhor forma. Ainda me encontro numa fase inicial, estou aqui há cerca de dois meses, e neste momento sou responsável pela recolha de dados dos armazéns (tanto da TNT como da FedEx), falar com os gestores de cada armazém de forma perceber a capacidade dos mesmos, o número de pessoas empregadas e subcontratadas e toda a logística envolvente.  Sou responsável por ajudar em todas as análises e estudos que sejam precisos para o processo de integração. Neste momento ainda me encontro muito numa fase de aprendizagem, no futuro terei responsabilidades por integração de certos departamentos, dando todo o apoio no terreno aos operacionais de forma a que os processos das duas empresas sejam mais facilmente integradas.

Já tinha pensado antes em trabalhar fora de Portugal?

Durante o curso sempre disse que não ficaria em Portugal, no entanto com o decorrer da vida foram surgindo boas oportunidades em Portugal e fui ficando, por um acaso do destino surgiu esta oportunidade e decidi que era a altura de aceitá-la.

Compensa estar longe da família e do país?

Nunca é fácil estar longe do nosso país, da nossa casa, de toda uma estrutura familiar e de amigos, no entanto, em termos profissionais, está a ser uma experiência única e muito enriquecedora. Nos dias de hoje com os voos low cost, Portugal-Inglaterra fica quase à distância de Porto -Lisboa. Vivemos num mundo da tecnologia, é muito mais fácil estar em constante contacto com a família e amigos. Nunca é fácil, mas neste momento da minha vida sinto que este esforço compensa.

Que tipo de acompanhamento tem um engenheiro a trabalhar em Reino Unido? Que lições podemos tirar?

Aqui, no Reino Unido, as empresas são muito focadas em dar formação aos seus engenheiros. Nos dois meses que estou aqui já tive uma formação em Frankfurt e no final do mês terei outra. Existe uma panóplia de formações e cursos que estão à nossa disposição de forma a melhorarmos certas skills, algo que acho muito positivo. Aqui os engenheiros são bastante valorizados a todos os níveis, quer em termos de conhecimentos e soft skills quer em termos monetários. Em comparação com Portugal sinto que aqui existe uma maior valorização da profissão, quer em termos salariais quer em termos formativos, sendo que esse e um dos principais motivos que faz com que cada vez mais jovens com o meu tipo de formação escolham emigrar. Sentem que o seu trabalho em Portugal não é minimamente valorizado. Era exatamente o que eu sentia quando estava em Portugal, que por muito que me esforçasse e que fosse a melhor profissional, nunca seria devidamente reconhecida. Acho que as empresas do nosso país devem olhar para a vaga de emigração qualificada e tentar perceber qual é a melhor forma de reter os jovens no nosso país. 

A engenharia continua a ser uma profissão de homens? Porquê?

Desde sempre que houve esse estigma, o meu pai é engenheiro Mecânico e sempre disse que no ano dele apenas existiam duas mulheres. No entanto, na atualidade não considero que seja uma profissão apenas de homens. Acho que cada vez mais esse estigma se vem dissipando, cada vez há mais mulheres a escolherem a Engenharia como profissão.

Enquanto mulher engenheira, quais as vantagens e desvantagens.

Não sinto que por ser mulher tenho mais ou menos vantagens do que um homem a exercer a mesma profissão.

Algum engenheiro/a que esteja a ler esta entrevista e que pense em trabalhar na mesma área, quais os skills que acha fundamentais terem?

Os skills que considero mais importantes num engenheiro são a adaptabilidade, versatilidade e o esforço constante para ser mais e melhor engenheiro.

A nova geração de engenheiros não tem medo de arriscar e trabalhar fora do país. Recomenda uma experiência internacional? Porquê?

Tendo em conta a minha experiência, aconselho vivamente uma experiência internacional, não só pelas razões já mencionadas, mas também para terem uma visão mais aberta relativamente ao mundo de trabalho. A forma como a Engenharia é exercida em Portugal ou num outro sítio é diferente, assim como as abordagens aos problemas e soluções. Sinto que trabalhar numa diferente realidade da que estava habituada me faz ser mais aberta à mudança e ter uma outra abordagem em tudo.

Qual é segredo para ser um bom engenheiro? Há segredo?

O segredo é gostar daquilo que se faz, ser empenhado e ter um compromisso com o trabalho.

A Engenharia está na moda? Porquê?

Sim acho que, definitivamente, a Engenharia está na moda, primeiro porque é uma das profissões mais abrangentes que conheço e dá-nos um conjunto de soft skills e know how que outras profissões não dariam. Claro que sou suspeita naquilo que digo, mas sinto que tenho uma visão muito mais abrangente e dinâmica da realidade devido ao curso que tirei. No entanto, antes de entrar para a faculdade queria seguir Economia, e o meu irmão, economista de profissão, disse que deveria optar por engenharia Industrial e Gestão por se tratar de um curso muito mais versátil e dinâmico. Por isso hoje tenho de lhe agradecer pelo sábio conselho que me deu porque me sinto muito feliz com a escolha que fiz.

 Qual acha ser ou qual deveria ser o papel da Ordem do Engenheiros na vida profissional dos Engenheiros?

Em primeiro lugar, acho que a Ordem dos Engenheiros deveria promover a ligação entre as faculdades e as empresas, tanto em termos de palestras, estágios como promover formações e encontros de forma a criar uma network para os engenheiros.

Há engenharia em tudo o que há?

Definitivamente. A engenharia encontra-se em tudo, no mundo real e virtual. A engenharia encontra soluções para os problemas e como tal estará sempre presente em todas as situações e ocasiões.

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