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As Grandes Entrevistas de Engenharia com… Catarina Pinto

15 Janeiro, 2019

“No futuro quero liderar projetos que apresentem uma tecnologia inovadora e que criem um impacto positivo na sociedade.” É a voz de Catarina Pinto, de 26 anos, que enquanto Engenheira de Ambiente trocou, no arranque da sua ainda curta carreira, Portugal pela Irlanda. Na Mota-Engil (Glan Água), Catarina Pinto começou como trainee e agora, enquanto engenheira projetista assegura a qualidade da água na Irlanda.

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Em 2019 arrancamos com o exemplo de quem chegou há pouco ao mercado de trabalho, mas já tem história para contar!  

Há muitas mulheres a trabalhar em Engenharia na Irlanda, ou a Engenharia continua a ser uma profissão de homens?

A Engenharia é uma profissão para quem se encontra disposto a resolver problemas. Penso que hoje em dia o estigma de que é uma profissão de homens está a desaparecer, e ainda bem! Porém na Irlanda existem muito poucas mulheres engenheiras, mas quem está dentro do mercado de engenharia aceita que isso está a mudar. Ainda assim tenho que admitir que já senti algum constrangimento em conversas com gerações mais velhas que vivem em zonas rurais.

Enquanto profissional da Engenharia, quais as vantagens e desvantagens em ser mulher?

Numa cultura mais tradicional uma mulher engenheira tem desvantagens, como por exemplo, trabalhar mais em ambiente de escritório ou cumprir funções administrativas. Isto acontece por receio que ao irem para obra não se conseguirem adaptar a condições mais rígidas de trabalho, como acordar às 5 da manhã e executar todo o trabalho mais pesado muitas vezes ao frio e à chuva.

Quanto às vantagens, penso que seja o facto de conseguirmos provar que é possível adaptarmo-nos a um ambiente de trabalho que pode ser mais pesado, mostrando que as desvantagens dependem na verdade de pessoa para pessoa e não do género.

Ainda assim o primeiro emprego dos recém-licenciados em engenharia parece passar muito pelo estrangeiro. É fundamental a experiência internacional?

O meu percurso profissional começou com um estágio-dissertação nas Águas de Gaia EM, no âmbito da realização de um plano de Segurança da Água, e depois tive oportunidade de trabalhar precisamente na Ordem dos Engenheiros – Região Norte na revisão da ISO9001:2015. Assim, francamente não acredito que seja fundamental que o primeiro emprego seja fora do país, mas acredito que uma experiência internacional abre muito os nossos horizontes. Isto porque vivemos uma realidade diferente e somos obrigados a encontrar soluções para problemas com os quais não nos deparamos no nosso país. Como engenheira é fundamental ter capacidade de resolução de problemas, por isso sair do nosso país, entrando numa nova cultura, acaba por dar mais traquejo na resolução de determinados problemas, pois começámos a ver as coisas de outra perspetiva.

 Depois de um curto percurso em Portugal, foi no programa de trainees da Mota-Engil que começaste realmente a tua carreira enquanto engenheira.

Sim, concorri ao programa que teve muitas fases. Entre entrevistas individuais e de grupo, assim como provas de raciocínio, consegui ser alocada ao mercado da Irlanda. Tive de realizar uma entrevista em inglês de forma a testar as minhas capacidades linguísticas e no fim tive a entrevista técnica. Foi assim que acabei a estagiar para a Mota Engil Irlanda – Glan Água. No início do programa todos os trainees tiveram um mês em sessões em Portugal de forma a perceber as diversas áreas de negócio da Mota-Engil e aprender a história e valores do Grupo. Estas primeiras semanas foram bastante interessantes. Conhecer o espírito, a cultura do Grupo e conhecer pessoas de áreas distintas, são factores importantes e muito úteis. Hoje é possível partilhar problemas e desafios que enfrentamos no trabalho, entre nós, os trainees, e descobrir uma solução ou ideias inovadoras do outro lado do mundo.

Após as semanas de integração no Grupo e no mercado, vim para a Irlanda juntamente com mais 6 estagiários, e tornamo-nos na verdade numa família. Assim, agora desempenho funções de Engenheira de projeto na mesma empresa, e faço parte dos programas de desinfeção.

Em que consistem esse programas?

São projetos de reabilitação/restruturação de pequenas estações de tratamento e estações elevatórias para abastecimento de água que se encontram em estado deficiente, chegando a não estar de acordo com a legislação irlandesa. Para esta reabilitação é necessário avaliar localmente cada estação de tratamento, propor novas soluções, executar essas soluções que muitas vezes passam por mudar todo o processo de tratamento da água e verificar se o que foi proposto é adequado e eficiente, através do comissionamento da ETA. Desta forma podemos garantir um abastecimento de água com qualidade à população.

A tua formação é em Engenharia do Ambiente, e a água é a tua área de atuação enquanto engenheira na Mota-Engil (Glan Água). Para quem está a ler fala-nos um pouco do que já desenvolveste.

Desde o início do meu percurso na Glan Água tive oportunidade de trabalhar em diferentes fases de um projeto de desinfeção. Realizei relatórios de site assessment, onde é feita a avaliação do estado de uma estação de tratamento de água. As nossas conclusões são apresentadas à Irish Water. Desenvolvi também relatórios de comissionamento que apresentam os resultados da Glan Água, isto é, apresentam os valores dos parâmetros de qualidade da água durante 30 dias, e se estes cumprem os requisitos. Elaborei as propostas de design que determinam as alterações a executar na ETA, sendo que após a aprovação da Irish Water é necessário tratar de toda a logística para dar ao início dos trabalhos. Esta logística envolve o contacto com fornecedores para ter todos os materiais e equipamentos planeados a instalar, contactar a equipa civil que irá executar os trabalhos de construção, a equipa para a realização das instalações elétricas e mecânicas, entre outros.

Mas isso envolve muitas equipas de muitas áreas, correcto.

Sim, e é bastante desafiante, visto que comunicar com diferentes equipas, contactar fornecedores, apelar a todas as equipas para as questões de segurança em obra, e tentar cumprir tudo dentro do tempo e orçamento estipulado, é um verdadeiro desafio. Mas a minha experiência profissional passa por mais do que aplico e aprendo tecnicamente.

Há oportunidade para fazer mais na empresa do que estar sempre a trabalhar?

Sim, por exemplo tive oportunidade de participar num concurso da empresa que se baseava num quizz sobre Higiene e Segurança no Trabalho a nível regional, tendo a Glan Água saído vencedora e passado à fase final. Foi algo muito divertido, até porque estava recentemente na empresa e ajudou-me a conhecer pessoas que trabalhavam em outras equipas.

Não haveria uma oportunidade igual na Mota-Engil em Portugal? Ou querias mesmo sair do país?

Já tinha como objetivo ter uma experiência profissional internacional desde que entrei na faculdade e a Mota-Engil foi o Grupo onde encontrei essa oportunidade.

Compensa estar longe da família e do país?

Apesar de custar bastante estar longe da família e amigos para mim está a ser uma experiência pessoal bastante compensatória, porque, para além de ser um investimento a nível profissional, cresci muito ao lidar com uma realidade diferente. Além disso hoje em dia, com a tecnologia existente, conseguimos diminuir as saudades. Acredito que é bem mais fácil que há 10 anos.

Que conselhos darias aos engenheiros que têm como objetivo trabalhar numa empresa semelhante e fora do país.

Penso que o primeiro conselho é não terem receio de irem para fora. É normal uma pessoa ter receio de dar o passo, e ir. É normal termos medo de perder o contacto com a família e os amigos, mas não deve ser isso a prender-nos de fazer algo que realmente queremos. Por isso aconselho a terem vontade de aprender não só a nível profissional, mas também aprender a cultura do país onde vão estar. Isso ajuda bastante na integração. Muitas vezes as empresas apresentam atividades que facilitam a adaptação de trabalhadores de fora promovendo atividades entre os colaboradores e outras entidades.

Isso aconteceu contigo?

No caso da Glan Água existe uma equipa de colaboradores que realiza atividades culturais/sociais, que ajudam os próprios colaboradores a conhecerem-se e a aproximarem-se, contribuindo para um melhor ambiente de trabalho. Semanalmente são organizados jogos de futebol entre elementos da empresa, e durante o verão (quando os dias são maiores) são realizados treinos de circuito entre os trabalhadores. Este ano como evento anual de caridade foi organizado triatlo que revertia para a Alzheimer Society of Irland.

 Que tipo de acompanhamento tem um engenheiro a trabalhar na Irlanda? Que lições podemos tirar?

A minha experiência é bastante positiva, tive bastante acompanhamento e não foi apenas acompanhamento profissional, em que havia sempre alguém a quem podia perguntar qualquer dúvida que tivesse, houve também acompanhamento pessoal. Aqui gostam de se certificar que compreendemos e se gostamos daquilo que fazemos. E por isso o que mais me surpreendeu foi mesmo o acompanhamento na adaptação. As pessoas preocupam-se genuinamente se estamos a gostar do país.

Quais os teus projetos de futuro?

Neste momento procuro ganhar mais conhecimento e experiência profissional, sinto que tenho ainda muito que aprender e crescer. Sei que no futuro quero liderar projetos que apresentem uma tecnologia inovadora e que crie um impacto positivo na sociedade.

 

A Engenharia está na moda? Porquê?

Sem dúvida, o ser humano procura cada vez mais soluções de forma a tornar a sua vida mais prática possível, isso passa inevitavelmente por soluções de Engenharia.

Qual achas ser ou qual deveria ser o papel da Ordem dos Engenheiros na vida profissional dos Engenheiros?

A Ordem dos Engenheiros deve apresentar um papel político, ter o poder de regulamentar a profissão de engenheiro. Para além disso a Ordem deve dar a oportunidade de continuamente instruir um Engenheiro, com cursos, conferências, eventos.

Acho importante a criação de momentos de networking informais, em que haja possibilidade de engenheiros poderem trocar experiências. Penso que é sobretudo importante para os jovens engenheiros e estagiários que muitas vezes precisam de um rumo para definirem os seus objetivos profissionais.

Há engenharia em tudo o que há?

Sim, há engenharia desde o nosso corpo e até numa simples folha de papel. Engenharia é o processo desde ter uma ideia a realizá-la. Engenharia é ser prático, uma pessoa se pensar consegue ver engenho em tudo que nos rodeia.

Recorde as Grandes Entrevistas de Engenharia AQUI

Recorde a participação do diretor de Recursos Humanos da Mota-Engil, Luís Monteiro, no Engenho2018 AQUI